Rodrigo
Muller

O Tímido Sobreadaptado

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O Tímido Sobreadaptado

Sou um tímido sobreadaptado. Para quem não conhece o termo, sobreadaptação é a criação de uma “persona” funcional e eficiente, uma aparência de normalidade que esconde um conflito interno. É um recurso para se adaptar ao ambiente, um mecanismo de defesa.  Não é autodiagnóstico de manual, é constatação. A diferença entre mim e o tímido clássico é que ele foge do palco; eu subo, e pago a conta depois. Aprendi cedo que, se esperasse a coragem chegar, perderia a aula, o caso clínico e o bonde da medicina que passava diante de mim. Então fui por outro caminho: falei tremendo mesmo. Dei aula suando mesmo. Fiz apresentações com o coração batendo em taquicardia didática, aquela em que o relógio vira monitor multiparamétrico da vergonha. Na graduação, minha meta era sair da frente da platéia vivo. Na residência, sobreviver às discussões de caso sem desmaiar. Hoje dou aula para anfiteatros, falo em reunião de diretoria, gravo com teleprompter se preciso for, fingindo naturalidade. Mas ainda travo quando a atendente pergunta “CPF na nota?”. O tímido não desapareceu; aprendeu etiqueta social, powerpoint e pausa dramática. É como um cirurgião que desmaia com sangue e mesmo assim entra em campo cirúrgico sozinho. A medicina foi meu exército. Nela, introvertido não ganha dispensa. O hospital funciona em regime de palco contínuo: rounds, discussões de caso, apresentações, pareceres, assembleias. A cada manhã, a timidez é convocada para mais uma campanha. No começo eu falava num tom que só o estetoscópio escutava. Depois, descobri truques: anotar a primeira frase (para decolar), a última (para aterrissar) e fingir que o público é um só paciente, desses que nos olham como se a vida dependesse de uma boa explicação. O truque virou método; o método, persona. Hoje já não sei exatamente onde termina o Rodrigo e começa o sujeito que projeta imagens e faz piada de si mesmo, só para soltar a plateia. Sobreadaptação tem efeitos colaterais. Um deles é a exaustão pós-aplauso: o público vai embora com a impressão de segurança, e eu fico com a conta metabólica. Outro é a suspeita de fraude: se consegui parecer tão à vontade, será que não virei o impostor de mim mesmo? É tentador acreditar no personagem que fala sem gaguejar. Mas o personagem não faz plantão, não explica más notícias, não sente a mão suar quando precisa discordar do colega mais velho. Quem faz isso é o tímido, e faz porque treinou, não porque nasceu pronto. Na vida real, minha timidez é como hipertensão leve: dá para viver, mas precisa de acompanhamento. Quando exagera, subo a dose de método: preparo mais, ensaio, corto o supérfluo. Quando estabiliza, arrisco uma ousadia, um silêncio de meio segundo, um comentário que amarra o raciocínio. Um professor me ensinou que o melhor antídoto para o nervosismo é a verdade dita com clareza. Descobri que funciona. Não elimina a tremedeira; dá sentido a ela. Há quem confunda sobreadaptação com hipocrisia: “Se é tímido, por que aparece?” Porque a medicina exige aparecer , não por vaidade, por responsabilidade. Não há como defender condutas, ensinar alunos, discutir riscos e benefícios escondido atrás do biombo. O aluno e o paciente precisam de um rosto que explique, um timbre que assuma, um gesto que assine. Eu faço isso com método e algum humor, não para parecer brilhante, mas para não parecer ausente. É meu jeito de não deixar a timidez virar deserção. Também aprendi a rir de mim. Antes de começar uma aula, sempre penso na saída de emergência. Não a do prédio, a do texto. Se tudo falhar, conto uma história verdadeira. A plateia ri; eu respiro; a aula segue. O humor é a diplomacia do tímido. No fim, ser um tímido sobreadaptado é aceitar que a coragem não vem na embalagem de coragem. Vem embrulhada em apresentação de aula, em roteiro, em pauta de reunião. Minha timidez não passou; aprendeu a trabalhar para mim. Quando subo para falar, não penso em vencer plateias; penso em ser útil. A utilidade é meu ansiolítico. E deixo combinado comigo mesmo: no dia em que eu parar de tremer antes de entrar, paro de entrar. Porque talvez, nesse dia, o personagem tenha vencido o médico. E eu prefiro continuar um tímido sobreadaptado, com a dignidade de quem ainda sente o chão balançar, a virar mais um orador impecável que esqueceu por que precisava falar.
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