O Medo de Rir da Medicina
Medicina é coisa séria. Todo médico já ouviu isso, e todo médico sabe que é verdade. Nada mais sério do que decidir se alguém vai para casa ou para o centro cirúrgico, se recebe antibiótico ou só um abraço. É a tal da “responsabilidade de vida e morte”.
Mas existe uma espécie de tabu em torno do humor. Como se rir de uma situação médica fosse automaticamente desrespeitoso, quase uma blasfêmia. “Isso é coisa séria”, repetem, como se a seriedade fosse incompatível com a ironia. Acontece que, para quem vive lá dentro, o humor é tão essencial quanto a máscara cirúrgica: serve para proteger.
O hospital é um lugar onde o drama é matéria-prima diária. Quem nunca sentou num plantão de madrugada, esperando o próximo chamado de urgência, não sabe como o tempo pode se dilatar. Se não houver humor, resta só a angústia, e ela costuma chegar primeiro. É nesse intervalo que o médico aprende a rir. Não de quem sofre, mas do teatro do cotidiano: da burocracia, do sistema, das reuniões infinitas, das estatísticas.
Rir é uma forma de sobrevivência. Se o médico não encontra graça em nada, vira pedra. E pedra não cuida de ninguém.
Quando decidi escrever pensei muito nisso. Haveria quem dissesse que misturar medicina e humor é mau gosto. Que é preciso reverência, luto, solenidade. Mas o humor não anula a seriedade, ele a evidencia. Quando ironizo a fila de exames, é porque sei o que significa esperar por um diagnóstico. Quando descrevo o médico que se acha infalível, é porque já vi os estragos que a arrogância faz. Quando rio de mim mesmo, é porque sei que a medicina é grande demais para caber no ego de um só.
Humor é lupa. Amplia o que está distorcido. Mostra o ridículo onde todo mundo finge que é normal. A ironia, bem usada, não diminui a dor , ela aponta onde dói.
O que seria de nós sem ela? O hospital se tornaria um lugar ainda mais pesado, as histórias ficariam insuportáveis de contar, os erros mais difíceis de admitir. O humor é a única válvula de escape que nos permite continuar no dia seguinte. Ele nos lembra que, por trás do jaleco, existe um ser humano que também precisa sobreviver. Por isso, se em algum momento você se pegar rindo de uma história de hospital, não se sinta culpado. O riso não é desrespeito. É um jeito de aguentar a verdade sem desmoronar. É a forma mais humana de olhar para a medicina e continuar acreditando nela.