Rodrigo
Muller

Mentoria de Mercantilização

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Mentoria de Mercantilização

Desembolsei quarenta e sete reais e atravessei a cortina. Bastou um Pix para entrar no submundo dos cursos pseudocientíficos vendidos por médicos a outros médicos. Um valor quase simbólico. Barato demais para não espiar. Caro demais pelo que se aprende.

O cenário é familiar. Apresentação bem feita, vocabulário técnico correto, oratória acolhedora, referências que existem. Estatística básica, fisiologia aceitável, críticas pertinentes ao sistema de saúde, ao tempo curto de consulta, à medicina apressada. Tudo verdadeiro. Tudo reconhecível. Tudo pensado para baixar a guarda.

Eles sabem exatamente o que fazem. Primeiro, constroem confiança com informações sólidas. Nada obviamente falso. Pelo contrário: dizem coisas que qualquer médico sério concordaria. O paciente precisa de atenção. Os planos de saúde pagam mal por consulta. O sistema não permite cuidado longitudinal. Até aqui, aplausos.

Depois vem a virada. O paciente deixa de ser paciente. O cuidado deixa de ser só relação. Vira venda escancarada de produto. O acompanhamento vira pacote. O tratamento vira mercadoria. Tudo embrulhado numa linguagem sedutora, emprestada do marketing digital, com um verniz de ciência e abordagem de empreendedorismo.

O curso, descobre-se, não é o produto. É o aperitivo. O verdadeiro objetivo é outro: fisgar o médico para uma mentoria de um ano. Um compromisso longo, caro e emocionalmente envolvente, vendido como “acompanhamento personalizado”, temperado com depoimentos de mentorados afirmando ter logo ultrapassado um alto limite de faturamento. Ali, prometem adaptar “protocolos” individualmente para cada médico, seja ele especialista, generalista ou alguém ainda à procura de uma identidade profissional.

A promessa é irresistível. Não importa sua formação, sua área, sua trajetória. Sempre haverá um protocolo que “encaixa”. Um método moldável, flexível, elástico o suficiente para vestir qualquer jaleco e vender. A pseudociência aqui não é rígida; é líquida. Ajusta-se ao médico, não ao paciente. O critério não é fisiológico, é mercadológico.

Nessa mentoria, ensinam não apenas o que dizer, mas como dizer. Como apresentar o pacote. Como criar autoridade. Como precificar o acompanhamento. Como conduzir a consulta até o momento da oferta. Porque oferta, ali, é parte do tratamento. Vender vira habilidade clínica.

O mais engenhoso é que tudo se mantém numa zona cinzenta. Não há uma mentira grosseira. Há uma sucessão de meias-verdades bem ordenadas. Usam lacunas reais da ciência para justificar atalhos imaginários. Apontam limites legítimos da medicina para empurrar promessas que a própria medicina jamais fez.

O discurso moral fecha o ciclo. O médico não está enganando ninguém, dizem. Está apenas oferecendo algo a mais. Se o paciente compra, é porque valoriza. Se paga caro, é porque se compromete. A ética é substituída por uma planilha de rendimentos. A vulnerabilidade do paciente some, dissolvida no apelo do livre mercado.

Agora há funil, mentoria, comunidade fechada, linguagem de startup. O erro deixou de ser amador. Tornou-se processo.

No fim, não se vende apenas pseudociência. Vende-se identidade. Um novo papel para o médico: menos cuidador, mais gestor de produtos terapêuticos. Menos dúvida, mais storytelling. Menos ciência, mais narrativa.

Saí do curso com a sensação de quem visitou um lugar que prefere esquecer, mas sabe que existe. Um mercado paralelo onde o médico vira vendedor e a medicina vira um catálogo de soluções sob medida para caber no bolso. Não do paciente, mas do médico.

Quarenta e sete reais bem gastos, talvez. Não pelo conteúdo. Mas pelo lembrete incômodo de que a pseudociência moderna vende bem. E, cada vez mais, oferece mentoria.

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