Rodrigo
Muller

Por Que Um Radiologista Resolveu Falar

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Por Que Um Radiologista Resolveu Falar

Talvez o leitor se pergunte por que um médico resolveu escrever. Ainda mais um radiologista, esse tipo estranho de médico que vive em salas escuras, uma subespécie reclusa, como morcego intelectual, lendo imagens em silêncio. O paciente do radiologista, convenhamos, nem é bem paciente. É cliente indireto, intermediado por um pedido de exame e um laudo. Quem realmente lê o que o radiologista escreve é outro médico. Radiologista é médico para médicos: o público-alvo mais silencioso e menos dado a aplausos que existe. E, no entanto, comecei a falar. Ou melhor, a escrever. Não foi um chamado divino, nem um súbito ímpeto literário. Foi ansiedade. Não a ansiedade do plantão, nem aquela de aguardar o resultado de uma biópsia. Foi ansiedade existencial, aquela que cresce cada vez que você abre as redes sociais e vê o estado em que colocaram a medicina. Médicos brilhantes, estudiosos, gente que lê artigos científicos no café da manhã, não aparecem no Instagram. Não precisam. Têm consultórios cheios, pacientes satisfeitos, uma carreira discreta e digna. Já os outros… Ah, os outros. Os medíocres, os que descobriram que a internet é um palco perfeito para vender milagre em cápsulas, detox da lua cheia e cura quântica para câncer. Alguns acreditam no que dizem, o que é pior. Outros são apenas herdeiros de vigarice, aprenderam cedo que a mentira bem embalada vende mais do que a verdade nua e crua. E eu, que passo os dias descrevendo cérebros e pulmões, comecei a ter dificuldade de descrever o que sentia. Cada vídeo de “médico influencer” prometendo juventude eterna me dava taquicardia. Cada colega repetindo estatística torta para vender suplemento me dava urticária. Eu precisava de um antídoto. Escrever virou meu antídoto. Cada crônica foi uma sessão de exorcismo. Eu sentava, organizava o pensamento, e colocava para fora o que me atormentava. Não para pregar sermão, mas para não deixar que a cabeça virasse uma sala de laudos cheia de exames pendentes. Não quero ser guru, nem profeta da medicina. Quero apenas que, no meio do ruído digital, exista uma voz que não venda esperança em pó, nem “cura definitiva” para doenças incuráveis. Que apenas conte como é a mente de quem, mesmo no silêncio da sala escura, ainda acredita que medicina é mais que espetáculo. E é por isso que escrevo. Por ansiedade, por necessidade, por sanidade. Porque, no fim, se eu não escrevesse, seria engolido pelo mesmo barulho que critico. Para mim, essa é a maior ironia: um radiologista, profissional treinado para ver dentro dos outros, precisou escrever para conseguir enxergar dentro de si.
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