Pequena história química da performance
Houve um tempo em que Wall Street cheirava a dinheiro, carpete caro, café requentado e cocaína.
Não necessariamente nessa ordem.
A cena já foi suficientemente explorada pelo cinema para parecer caricatura: homens jovens demais para tanto dinheiro, ternos caros demais para tão pouca sabedoria, telefones em duas mãos, pupilas em horário comercial estendido, os dentes rangendo como se também tivessem participação nos lucros. O mercado subia, o mercado caía, alguém gritava “compra”, outro gritava “vende”, e no banheiro do andar executivo pairava a suspeita de que parte da economia americana circulava por vias não exatamente regulamentadas.
A cocaína combinava com aquele ambiente. Não se apresentava como fuga. Apresentava-se como ferramenta. Não dizia “venha se destruir”. Dizia “venha render”. Era a droga perfeita para uma cultura que confundia exaustão com mérito, agressividade com liderança e insônia com comprometimento.
O sujeito não queria desaparecer da realidade. Queria vencê-la por algumas horas.
Toda época inventa palavras bonitas para esconder seus vícios.
Na Wall Street dos anos dourados e cafonas da ambição química, a palavra era performance. Hoje, ela continua a mesma. Apenas trocou de roupa e de cenário. Saiu do terno risca de giz e vestiu regata cavada. Saiu do banheiro corporativo e entrou no vestiário da academia. Depois entrou na reunião de diretoria, no podcast de negócios, no grupo de WhatsApp dos empresários, no retiro de alta performance e, vejam só, nos consultórios.
Antes, o homem queria ficar acordado.
Depois, quis ficar grande.
Agora, quer ficar otimizado.
A comparação entre cocaína e anabolizantes exige cuidado, porque as substâncias não são iguais. A cocaína é estimulante, de recompensa rápida, eufórica, elétrica. Os esteroides atuam por outra via: mexem com receptores hormonais, massa muscular, metabolismo, eixo hormonal, humor, pele, libido, fertilidade, pressão, coração, fígado e, sobretudo, com uma coisa que a medicina mede mal: a identidade.
Portanto, não são a mesma droga.
Mas frequentam a mesma igreja.
A igreja do desempenho. Na primeira fileira, senta o homem que não pode cansar. Na segunda, o homem que não pode diminuir de tamanho. Na terceira, mais recente e mais bem vestida, senta o homem que não pode envelhecer. No altar, uma promessa antiga com linguagem nova: você pode superar os limites do corpo, desde que aceite pagar juros biológicos.
A cocaína dizia ao operador financeiro: você aguenta mais uma noite.
O anabolizante dizia ao frequentador de academia: você aguenta mais uma versão de si mesmo.
A testosterona recreativa, reembalada como medicina de performance, diz agora ao empresário de meia-idade: você ainda está no jogo.
O problema começa justamente aí, nessa expressão aparentemente inofensiva: estar no jogo. Hoje ninguém mais é apenas uma pessoa. É uma versão. Versão atual, melhorada, premium, seca, focada, viril. Versão que acorda cedo, treina pesado, mede sono, calcula proteína, acompanha testosterona, fala de dopamina, jejum, produtividade e transcendência metabólica sem que ninguém na mesa peça uma pausa para respirar.
A testosterona virou uma espécie de EBITDA biológico.
Um indicador que o sujeito acompanha como quem acompanha faturamento mensal. Há grupos de empresários em que se fala de testosterona total, testosterona livre, SHBG e estradiol com a mesma naturalidade com que antes se falava de dólar, Selic e terreno em condomínio fechado. Um mostra o exame ao outro. Outro comenta que está “baixo para a idade”. Um terceiro diz que, para ele, o ideal é ficar em tal faixa, porque abaixo disso “não performa bem”.
O corpo virou empresa.
Não basta sentir-se bem. É preciso comprovar que se está bem por meio de números. Não basta ter desejo. É preciso medir a testosterona. Não basta viver. É preciso apresentar indicadores convincentes de que a vida está entregando resultado.
Musculação é uma das intervenções mais importantes para saúde, envelhecimento, força, autonomia e autoestima. O problema não é levantar peso. O problema é quando o peso que se levanta deixa de ser de ferro e passa a ser existencial.
Há homens e mulheres que treinam para não se sentirem pequenos.
E há também homens que buscam hormônios não porque têm uma doença bem diagnosticada. Buscam porque não toleram a ideia de funcionar dentro da normalidade humana. Querem foco, vigor, libido, agressividade comercial, desempenho sexual, carisma de palco e, se possível, uma leve aura de predador corporativo.
Essa é a nova sofisticação do velho atalho. O que antes aparecia como “bomba” no vestiário agora aparece como otimização hormonal em podcast de negócios. O sujeito não quer só ficar grande. Quer performar na empresa, na reunião, no palco, no Instagram, na família e, se sobrar tempo, na cama.
Ambos, o operador de Wall Street e o empresário otimizado, partem da mesma premissa: a biologia humana, deixada sozinha, é incompetente para competir.
A pseudociência moderna não vende apenas substâncias. Vende autorização moral.
Ela pega uma angústia humana e a veste de biologia avançada. O sujeito não está inseguro, está “com testosterona subótima”. Não está deprimido, está “inflamado”. Não está envelhecendo, está “oxidando”. Não está triste com a própria vida, está “com baixa performance mitocondrial”.
É sempre mais elegante dizer que se está otimizando marcadores do que admitir que se está tentando comprar autoestima em parcelas hormonais.
O picareta contemporâneo raramente aparece com cara de vendedor de óleo de cobra. Seria fácil demais. Ele aparece de terno ajustado, tênis caro, microfone de lapela, iluminação boa e vocabulário impecável. Fala em eixo hormonal, medicina preventiva, longevidade, inflamação silenciosa. Nada disso é necessariamente falso. O truque está no tamanho da promessa.
A verdade pequena é inflada até virar salvação.
A testosterona existe. Logo, tudo é testosterona. O envelhecimento reduz algumas reservas fisiológicas. Logo, envelhecer virou uma falha operacional. O exercício é fundamental. Logo, quem não vive como atleta está traindo a própria biologia.
Esse é o método. Não se inventa uma mentira do zero. Pega-se uma verdade, retira-se a proporção, adiciona-se medo, embala-se em estética de saúde e vende-se como destino.
Nenhuma indústria prospera tanto quanto aquela que transforma insegurança em projeto técnico. O sujeito chega dizendo que está cansado, envelhecendo, perdendo libido, perdendo relevância, perdendo uma disputa imaginária com homens que nem conhece. Sai de lá com uma explicação, um protocolo, uma promessa e, se o negócio estiver bem estruturado, um link de pagamento.
A grande sacada foi transformar o limite em diagnóstico. Antes, o sujeito precisava estar doente para procurar tratamento. Agora basta não estar extraordinário.
A normalidade virou doença. E, como toda doença inventada, precisa de tratamento contínuo.
A dependência, nesse contexto, fica mais difícil de enxergar.
Com cocaína, o imaginário social reconhece a queda: a pessoa acelera, falta, mente, quebra, entra em abstinência. Há sinais mais dramáticos.
Com anabolizantes usados como performance, a dependência pode vir vestida de disciplina. O sujeito treina, come melhor, dorme cedo, parece saudável, recebe elogios, posta frases sobre foco, orienta colegas.
Que vício maravilhoso, diria o diabo, se também trabalhasse com marketing digital.
O problema é que o corpo aumentado produz uma nova identidade social. O rosto muda. A camiseta assenta diferente. O olhar dos outros muda. O sujeito entra nos lugares com mais presença. E presença, para quem antes se sentia invisível ou em declínio, é uma droga poderosíssima. Talvez mais viciante do que a própria substância.
Depois vem o medo.
Medo de parar. Medo de perder volume. Medo de voltar ao corpo anterior. Medo de viajar e perder dose de manutenção. Medo de ser apenas normal. Medo de descobrir que aquela autoconfiança era um contrato temporário com o próprio sistema endócrino.
A cocaína empurra o sujeito para a urgência. O anabolizante prende o sujeito na manutenção. A testosterona de performance transforma a meia-idade numa falha de gestão.
A medicina séria tem uma mania irritante para os vendedores de milagre: ela estraga a festa com complexidade. Fala de indicação, dose, risco, benefício, efeitos adversos, fertilidade, eventos cardiovasculares, dependência, contexto.
O picareta organiza a vida em frases curtas.
“Você não está velho, está mal hormonizado.”
“Você não está cansado, está inflamado.”
“Você não está rendendo porque ainda não otimizou seu corpo.”
É uma poesia ruim, mas vende bem.
O resultado é uma nova moral corporal: quem não melhora sem parar está falhando. Wall Street ensinou que o mercado é capaz de transformar exaustão em virtude. O fitness extremo ensinou que também transforma insegurança corporal em plano terapêutico. O empresariado da alta performance acrescentou a camada mais cômica e assustadora: transformar biomarcadores em indicadores de liderança.
São capítulos da mesma história. Num, o homem cheira para continuar produzindo. No outro, injeta para continuar parecendo produzido. No terceiro, monitora hormônios para continuar se sentindo competitivo.
No meio, há sempre alguém lucrando com a inadequação alheia.
A pergunta mais interessante não é por que o sujeito usa. É outra: que tipo de cultura faz uma droga parecer uma escolha racional?
Na Wall Street dos excessos, a resposta era clara: competição feroz, noites intermináveis, bônus milionários, culto ao risco. No meio empresarial contemporâneo, acrescenta-se a ilusão de que todo aspecto da vida pode ser gerenciado como empresa: sono, desejo, foco, humor, testosterona, envelhecimento, casamento, propósito e, com alguma consultoria e fé, talvez até a vida após a morte.
A dependência química não se instala apenas porque uma substância age no corpo. Instala-se porque encontra uma narrativa. E a narrativa atual é poderosa: você pode ser otimizado. Pode ser mais seco, mais forte, mais viril, mais jovem, mais líder. Pode deixar de ser uma pessoa e virar um projeto de alta performance com pele humana.
Não deixa de ser curioso que, numa época que fala tanto em saúde mental, tenhamos criado um ambiente em que o sujeito saudável se sente insuficiente o tempo inteiro.
E onde há insuficiência permanente, há mercado permanente.
A cocaína, pelo menos, nunca teve a delicadeza de se apresentar como autocuidado.
Os anabolizantes, quando capturados pela estética da pseudomedicina, entram pela porta da frente com crachá de saúde. Vendidos por profissionais de jaleco, em consultórios iluminados, com gráficos, protocolos e frases sobre qualidade de vida.
Mudou a embalagem.
O desejo continua o mesmo: escapar da condição humana sem precisar chamar isso de desespero.