Rodrigo
Muller

A Voz do Laudo e a Voz da Crônica

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A Voz do Laudo e a Voz da Crônica

Passo o dia escrevendo. Às vezes me pergunto se, sem perceber, não virei um escriba de mim mesmo, daqueles que passavam a vida escrevendo manuscritos à luz de vela, só que agora com monitores de 27 polegadas e café expresso na veia.

De manhã, escrevo laudos. À tarde, escrevo laudos. Antes do amanhecer, quando a cidade ainda se cala, escrevo textos. Cada um com seu ritmo, sua voz, seu público.

Quando escrevo um laudo, penso no colega que vai ler: o clínico, o cirurgião, a equipe de enfermagem. Imagino o que eles precisam saber, o que vai mudar conduta, o que não pode ser deixado ambíguo. Imagino a cena: o médico no pronto-socorro, a paciente com dor, o cirurgião esperando na sala ao lado. Eu sei o poder que uma palavra tem. “Compatível com” não é a mesma coisa que “sugere”. “Não se descarta” é a segunda frase mais covarde que já inventaram. A primeira é “sugere-se correlação com dados clínicos”. Essa merece uma estátua: consegue ser ao mesmo tempo frouxa, vaga, inútil e irritante. Serve para tudo e não diz nada. No laudo, cada vírgula tem peso específico.

Nos textos, o jogo é outro. Eu troco o jaleco pela camiseta, às vezes pelo moletom, e falo com o leitor que não está preocupado se o pulmão está limpo. Ele quer rir, pensar, se identificar. Se no laudo eu escrevo para informar, na crônica escrevo para cutucar. Para provocar um sorriso ou um desconforto leve.

Curioso é que, apesar da diferença de tom, há um parentesco secreto entre as duas vozes. Tanto no laudo quanto na crônica existe um compromisso com a clareza. Não posso ser prolixo num laudo, assim como não posso ser chato numa crônica. Nos dois casos, o leitor me empresta alguns minutos da vida e eu devo a ele o melhor texto que consigo.

Descobri ainda um fenômeno mais fascinante: a voz autoral. Na radiologia, aprendi a reconhecer a assinatura invisível de cada colega. Dê-me um laudo anônimo e, na maioria das vezes, digo quem escreveu. Fulano adora “no contexto clínico adequado”. Sicrano tem um fetiche por “correlacionar com”. Beltrano jamais usaria “discreta”, sempre “tênue”. É como se cada um tivesse seu sotaque técnico.

Na crônica, busco a mesma coisa: um sotaque literário. Quero que o leitor leia duas linhas e diga: “isso é coisa do Rodrigo”. Não é vaidade, é identidade.

No fim das contas, escrever o dia inteiro me ensinou algo precioso: o texto é uma ponte entre cabeças. Uma ponte que precisa ser bem construída para não cair no primeiro tropeço. No laudo, ela leva da imagem para a decisão clínica. Na crônica, leva da minha obsessão para o riso ou para o insight do leitor.

O prazer está justamente aí: em reconhecer que, no meio do ruído, ainda é possível ter uma voz. Que alguém, em algum lugar, vai ler e pensar: “eu sei quem está falando comigo”.

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